Adolescência e identidade: quando “não sei quem sou” faz parte do processo

A sensação de não se reconhecer, de não saber bem quem se é ou o que se quer, costuma assustar quem a sente e quem observa de perto. Nos adolescentes, ela aparece com frequência e provoca nos adultos ao redor uma mistura de preocupação e impaciência. Mas a psicologia tem algo importante a dizer sobre isso: não saber quem se é, nessa etapa da vida, não é necessariamente um problema. É parte de um processo.

elementos e formas geométricas aleatórias representando a constituição da identidade na adolescência

A identidade não é algo que se descobre pronto dentro de si, como se já estivesse lá esperando para ser encontrado. Ela se constrói, e essa construção acontece nas relações, nos grupos, nas experiências, nos conflitos e nas escolhas que o adolescente vai fazendo ao longo do tempo. A cultura, a família, o lugar onde se cresce, tudo isso entra na composição de quem alguém está se tornando. A perspectiva Histórico-Cultural que orienta meu trabalho, tradição inaugurada por Lev Vigotski e amplamente estudada na psicologia brasileira (como mostra a produção científica reunida na SciELO Brasil), entende o sujeito sempre dentro desse tecido de relações e histórias, nunca isolado delas.

O que isso significa na prática é que os movimentos e as inquietações próprios da adolescência muitas vezes não são sinal de que algo está errado com o jovem, mas de que algo importante está acontecendo. A experimentação, a contradição, os grupos que se formam e se desfazem, inclusive nos espaços digitais (tema que discutimos no texto Redes Sociais e Infância), a relação tensa com as referências que vinham da infância, tudo isso tem função. O problema aparece quando o sofrimento fica sem lugar para existir, quando não há adultos disponíveis para escutar sem resolver, quando a angústia vira isolamento.

Buscar apoio psicológico na adolescência não é reconhecer uma falha. É oferecer ao jovem um espaço onde ele possa pensar sobre si mesmo com alguém de fora do campo familiar, com o sigilo e a escuta que esse momento pede. Porque a adolescência não é uma fase a ser apenas atravessada até a vida adulta: é uma etapa da vida, com valor próprio, em que muito do que cada um vai ser começa a ganhar forma.

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