A formação em Psicologia coloca em cena uma questão que nem sempre é nomeada: a pessoa aprende sobre o sofrimento humano durante anos, lê sobre inconsciente, trauma, vínculo, mecanismos de defesa, e muitas vezes chega à prática clínica sem ter ocupado o lugar de paciente. Conhecer a teoria é uma coisa. Sentar do outro lado do divã, ou da cadeira, experimentar-se como sujeito é outra, completamente diferente.
Não por acaso, a tradição psicanalítica sustenta que a formação do analista não se esgota na teoria. Há algo que só pode ser transmitido pela própria experiência de análise. É ali que se aprende, pouco a pouco, a suportar não apenas a própria falta, mas também o próprio ridículo: as contradições, as repetições, os ideais que caem, aquilo que escapa ao controle e insiste em retornar. Não para tornar-se alguém “resolvido”, mas para deixar de acreditar que é possível ocupar a escuta do outro sem antes ter sido atravessado pela própria.
A análise pessoal não é um requisito burocrático. É parte da formação de um jeito que nenhuma disciplina substitui. O estudante que passa pela própria análise começa a perceber, na prática, o que significa ter um espaço de escuta verdadeiramente neutro, sem julgamento e sem agenda, sustentado também pela garantia do sigilo que acolhe a fala. Percebe também onde estão os próprios pontos cegos, as reações que vêm antes do pensamento, as histórias pessoais que podem interferir na escuta do outro se não forem conhecidas. Quem nunca foi paciente tende a subestimar o quanto isso importa.
Atendo em Joinville e online, com orientação psicanalítica, e gosto especialmente de acompanhar estudantes de Psicologia.
Há algo muito singular em acompanhar estudantes de Psicologia. A formação coloca em movimento questões que ultrapassam a sala de aula. Em determinado momento, a teoria encontra a própria história de quem estuda, e estudar e implicar-se deixam de ser experiências separadas. A análise não aparece aí como um requisito, mas como um espaço possível para que cada um possa construir uma relação com o próprio desejo, com seus impasses e com aquilo que escapa ao saber.
Talvez seja justamente isso que torne possível, mais tarde, sustentar a escuta de alguém: não a ilusão de saber sobre o outro, mas a experiência de ter encontrado, na própria análise, um lugar para não recuar diante do que insiste.