Antes de falar de si: as histórias que as mulheres levam para a análise

Antes mesmo de falarem sobre si, muitas mulheres chegam à clínica trazendo histórias das pessoas que cuidam, das responsabilidades que sustentam e das expectativas que aprenderam a carregar. São tantos papéis desempenhados há tanto tempo que o cansaço se torna rotina e o tempo consigo mesmas frequentemente nem entra na lista, até porque vira mais uma tarefa. Mas, se elas tiverem um espaço de escuta, o que acontece?

Na clínica psicanalítica, frequentemente ouvimos pessoas contando histórias que aprenderam sobre si mesmas, mas que ainda não foram construídas a partir de sua própria palavra. No caso das mulheres, essas histórias também carregam discursos acumulados ao longo do tempo sobre como uma mulher deve ser, amar, cuidar, trabalhar ou ocupar o próprio corpo. A escuta psicanalítica oferece um lugar em que não se exige função nem desempenho, nem acrescenta mais um imperativo que essas mulheres já não tenham escutado em suas vidas. Pensar a psicanálise para mulheres é considerar justamente essa diversidade: existem mulheres com histórias, corpos, desejos e relações muito diferentes entre si, que podem encontrar, por si mesmas, outros sentidos sobre os lugares que aprenderam a ocupar.

Muitas vezes, o que se apresenta como cansaço ou frustração guarda questões antigas sobre pertencimento, sobre o corpo, inadequação e silenciamento, sobre a liberdade de existir como se é. Questões que também podem fazer parte da vivência de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+. A escuta psicanalítica sustenta o singular, mas nenhuma história é construída isoladamente, o trabalho analítico acompanha justamente o modo como cada sujeito se apropria, narra sua história ou encontra novos sentidos. Como nos lembra Conceição Evaristo, contar a própria história também é um modo de romper silenciamentos. Que cada pessoa possa encontrar palavras para aquilo que, durante muito tempo, existiu apenas como peso, exigência ou silêncio. Quando uma história encontra espaço para ser dita, ela também pode encontrar novas formas de ser compreendida e vivida.

É nessa perspectiva que sustento na clínica: atendo mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ com escuta psicanalítica, prezando pela ética e sensibilidade, a partir do trabalho da psicanálise em Joinville da Equipe Práxis.

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