O que a brincadeira diz: escuta e primeira infância na psicanálise

A criança que ainda não fala em frases completas já diz muita coisa. Diz pelo jeito que brinca, pelo que repete, pelo que evita, pelo que encena com os bonecos de uma forma que os adultos às vezes observam sem entender bem o que estão vendo. A ausência de palavras não é ausência de linguagem. É outra linguagem, e ela pode ser escutada.

mesa com brinquedos simbolizando o brincar para a análise infantil

Como a psicanálise escuta crianças pequenas

A psicanálise com crianças pequenas, inclusive com bebês a partir do primeiro ano de vida, não depende da fala para acontecer. O que orienta o trabalho é a atenção ao que a criança faz, ao que se repete nas sessões, ao que aparece no brincar como um tema que volta sem ser chamado. Uma criança que encena a mesma situação de separação toda vez que chega ao consultório está falando de algo, mesmo que não saiba disso e mesmo que não tenha ainda as palavras para nomear. No blog da Equipe Práxis há um texto que explica bem o papel dos pais no processo terapêutico com crianças, algo que costumo abordar logo nos primeiros contatos com a família.

Os pais que chegam ao consultório geralmente carregam uma sensação difícil de explicar: algo não está bem, mas não sabem dizer o quê. Choros que não cedem, sono muito fragmentado, comportamentos que parecem fora do que era esperado para a idade, uma irritabilidade constante sem causa aparente. Essas percepções merecem atenção. Não porque signifiquem necessariamente algum problema grave, mas porque a criança pequena depende dos adultos ao redor para que o seu sofrimento seja percebido e acolhido. A Sociedade Brasileira de Pediatria ressalta a importância de intervenções precoces justamente porque os primeiros anos de vida são determinantes para o desenvolvimento emocional.

A psicanálise não entra para consertar a criança nem para apressar um desenvolvimento que tem o próprio ritmo. Ela abre um espaço onde o que é difícil pode aparecer de um jeito que possa ser escutado, sem pressa e sem julgamento. E às vezes o que muda no filho começa pelo que muda na forma como os pais conseguem estar com ele.

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