Saúde mental das mulheres: o que acontece quando a gente não para para se ouvir

Existe uma conta que vai sendo aberta sem que ninguém perceba. A mulher que responde às necessidades de todo mundo, que está disponível para os filhos, para o trabalho, para a família, para os amigos, e que vai adiando o próprio cansaço porque sempre há algo mais urgente, vai acumulando. Em algum momento, aquilo que ficou de fundo cobra a sua parte, e cobra de formas que surpreendem: uma irritabilidade que parece vir do nada, uma tristeza sem causa aparente, um esgotamento que o fim de semana não resolve.

Antes de tudo, vale dizer que a saúde mental das mulheres não é uma questão individual. Ela se constitui dentro de um campo de relações e de contextos que distribuem o cuidado de forma desigual, em que o trabalho doméstico e emocional é invisível, embora exaustivo, e em que a expectativa de que a mulher esteja sempre disponível foi tão normalizada que ela própria a incorporou. A literatura científica sobre saúde mental e gênero, reunida em bases como a SciELO Brasil, descreve bem esse padrão. Assim, a autoestima que fica para depois, o autocuidado que soa como egoísmo e a dificuldade de pedir ajuda, porque sempre foi “ela quem ajuda”, fazem parte do mesmo quadro.

elementos em forma de pedras representando a busca por equilíbrio e saúde mental das mulheres

Nesse sentido, o autocuidado tem pouco a ver com a ideia de spa que circula por aí. Na Gestalt-terapia, o ponto de partida é a percepção de si, aquilo que se chama de awareness: a capacidade de se dar conta do que se passa, de perceber o que se sente, de reconhecer o que esgota e o que sustenta, de notar o cansaço enquanto ele ainda é pequeno. É um cuidado menos glamouroso do que o termo costuma sugerir nos conteúdos de bem-estar e, ao mesmo tempo, muito mais concreto. Essa percepção começa no corpo, tema que aprofundamos no texto Como a consciência corporal pode ajudar a regular as emoções.

Quando essa percepção falta, o corpo costuma falar primeiro. A tensão que não cede, o sono que não descansa, o cansaço que vira figura justamente quando já não dá para ignorar são sinais de que algo no campo pede atenção. Sobre isso, vale a leitura de Quando o corpo fala: sinais de estresse e como cuidar de si antes do limite. Por isso, ter limites sem culpa não é endurecer, e sim cuidar da fronteira do contato: decidir o que entra, o que pode esperar e o que precisa de um não.

Para muitas mulheres, ter uma hora de escuta só para si, em que não é preciso cuidar de mais ninguém ali, já é um passo importante. E o que muda quando uma mulher começa a se ouvir não é apenas ela. Muda a forma como ela está presente nas relações, o que consegue oferecer de modo sustentável e o que consegue pedir sem se sentir um fardo. No fim, se ouvir não é mais um item na lista de tarefas: é a base de onde o resto se sustenta.

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