Ciúmes e ansiedade: quando o medo de perder alguém nos afasta de nós mesmos

Duas da manhã, o celular na mão, relendo uma mesma conversa pela quinta vez em busca de um tom que talvez nem exista. Essa cena é mais frequente do que parece. Quando o ciúme vem acompanhado de uma ansiedade intensa, ele deixa de ser apenas um sentimento pontual: rouba o sono, multiplica hipóteses, leva a pessoa a verificar o que já verificou, a perguntar o que já perguntou. E, com frequência, esse sofrimento vem acompanhado de vergonha. A pessoa sente que está exagerando, julga a própria reação desproporcional, e mesmo assim não consegue interromper o ciclo.

Esse sofrimento se manifesta de formas bem diferentes de pessoa para pessoa. Algumas sentem primeiro no corpo, um aperto no estômago que antecede qualquer pensamento consciente. Outras percebem pela irritabilidade, respondem de forma seca sem entender de imediato o motivo. Há quem passe a observar redes sociais e mensagens com uma atenção que antes não existia, e há quem faça o movimento inverso, se retraia, evite o assunto e acumule a tensão até ela se tornar difícil de conter. Não há uma única forma de vivenciar isso, e cada uma dessas expressões costuma ter uma história particular por trás, que só pode ser compreendida com escuta cuidadosa, não a partir de explicações genéricas.

Na terapia cognitivo comportamental, o trabalho com esse tipo de sofrimento envolve identificar os pensamentos automáticos que sustentam o ciúme, como “essa pessoa está se afastando” ou “não sou mais importante como era antes”, e avaliar com precisão o que neles corresponde a fato e o que corresponde a interpretação. Em alguns momentos a percepção é coerente com a realidade, em outros reflete um padrão de alerta que se ativa mesmo sem uma ameaça concreta. O objetivo não é eliminar o ciúme ou convencer a pessoa a não senti-lo, o que raramente funciona e costuma intensificar a culpa. O trabalho é reconhecer o próprio padrão, identificar os gatilhos antes que a reação se intensifique, e construir, de forma gradual, uma relação menos vigilante e mais estável com o parceiro e consigo mesmo.

Reconhecer-se nessa descrição não indica nenhum tipo de falha pessoal. Ciúme intenso e ansiedade em relacionamentos estão entre os motivos mais frequentes de busca por acompanhamento psicológico, e respondem bem a intervenção especializada. Quando esse sofrimento já ocupa espaço significativo no cotidiano, buscar ajuda profissional costuma ser um passo importante.

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