O luto que ninguém reconhece: perdas sem ritual

Quando alguém morre, existe um roteiro. As pessoas ligam, mandam mensagem, aparecem com comida. Há velório, há licença no trabalho, há uma frase pronta para dizer. Só que muitas perdas acontecem fora desse roteiro, e quem as vive descobre algo cruel: sofre igual e não recebe nada disso. É o que a literatura sobre o tema chama de luto não reconhecido.

A lista é maior do que parece. O aborto espontâneo de quem ainda nem tinha contado a ninguém. O fim de um relacionamento que a família não aprovava. A morte de um animal, tratada com um “era só um cachorro”. A perda de um ex, de um amigo distante, de um amor que nunca foi oficial. O adoecimento que tira a autonomia sem que ninguém tenha morrido. A demissão que levou junto o lugar de quem se reconhecia pelo trabalho. Em todos esses casos, a dor existe, mas não encontra plateia, e sem plateia não há ritual.

É aí que mora a dificuldade. O luto se elabora nas relações, contando a história muitas vezes, sendo escutado, deixando o outro segurar um pedaço do peso. Quando a perda não é reconhecida socialmente, a pessoa fica sem interlocutor e acaba concluindo que o problema é o tamanho da própria reação, o que acrescenta vergonha à tristeza. Reconhecer a perda em voz alta já é o primeiro cuidado. Escrevi antes sobre o luto que começa antes da morte, e este texto trata do outro extremo, o da perda que nem chega a ser nomeada como tal.

Não é preciso comparar dores nem justificar a sua para ter direito a ela. Se algo importante acabou, houve perda. Atendo em Joinville e online, com foco em luto e processos de fim, e integro a equipe de psicólogas em Joinville da Práxis. Às vezes, o que falta é apenas um lugar onde a perda possa finalmente ser chamada pelo nome.

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