Toda geração de adolescentes experimentou papéis. Mudou de estilo, entrou e saiu de turma, defendeu com convicção uma ideia que abandonaria seis meses depois. A diferença de agora não está no experimentar, que continua sendo a tarefa da idade. Está no fato de que, em adolescência e redes sociais, esse experimento acontece registrado, com público e com contagem.
A Psicologia Histórico-Cultural entende que a gente se constitui nas relações e na cultura em que vive. Ora, as redes são hoje parte dessa cultura, não um apêndice dela. É ali que circulam as referências, os códigos do grupo, as formas de pertencer. Por isso não faz muito sentido tratar o celular como inimigo a ser eliminado: seria como pedir ao adolescente que se desenvolva fora do mundo onde os colegas dele vivem. O ponto de atenção é outro, e é mais sutil.
O que muda é que o ensaio virou apresentação. Antes, testar uma versão de si tinha custo baixo: se não desse certo, poucos viam. Agora existe métrica pública, comparação permanente com recortes editados da vida alheia e registro que não desaparece. Isso pode empurrar o adolescente a fixar cedo demais uma imagem que funcione, em vez de continuar experimentando, que é justamente o que a fase pede. Escrevi antes sobre identidade como construção, e não descoberta, e as redes tensionam exatamente esse processo.
Para as famílias, o caminho que costuma funcionar não é a proibição, e sim a conversa que demonstra interesse real pelo que acontece ali. Perguntar o que ele acompanha, o que acha graça, o que incomoda. Atendo adolescentes, adultos e idosos em Joinville e integro a equipe de psicólogas em Joinville da Práxis. Quando o adolescente sente que o adulto quer entender, e não vigiar, ele costuma abrir a porta.