Poucas crianças chegam dizendo que estão sofrendo. O que chega, quase sempre, é outra coisa: o sono que virou batalha, o prato que não desce, a professora que ligou de novo, a mochila que some. Os pais costumam procurar ajuda pela via do incômodo prático, e faz sentido, porque é ali que a rotina trava. Só que os sintomas emocionais na criança raramente vêm com legenda.
Na psicanálise com crianças, esses episódios não são lidos como falhas de comportamento a serem corrigidas, e sim como um jeito de dizer o que ainda não cabe em palavra. Uma mudança de casa, a chegada de um irmão, uma separação, uma perda na família: coisas que o adulto explica em uma frase, e que a criança precisa de meses de brincadeira para digerir. Enquanto isso, o corpo e a rotina falam por ela. Portanto, antes de perguntar como fazer a criança dormir, vale perguntar o que anda tirando o sono dela.
É esse deslocamento que a escuta permite. No consultório, o brincar é onde a história aparece, e já escrevi sobre isso em o que a brincadeira diz. Com atuação em psicanálise com crianças, atendo em Joinville e online, e integro a equipe de psicologia infantil em Joinville da Práxis. Você conhece meu trabalho na minha página de apresentação.
Isso não quer dizer que todo choro noturno peça análise. Fases existem, e passam. Mas quando o sintoma se instala, se repete e começa a organizar a vida da casa em torno dele, é sinal de que algo pede escuta. E vale lembrar: escutar a criança quase sempre implica escutar também os adultos que a cercam, porque é nessa trama que ela se constitui.